A ideologia democrática

Qualquer dia, Sassaroli, quero descer a borduna na democracia. Mais especificamente, na ideologia democrática. Aquela que sai da boca do Bush, por exemplo. Mas hoje vou ficar só nas drogas.

Aliás, ser contra a legislação antidrogas é uma coisa de esquerda ou de direita? Acho que, como questão de fato, é de esquerda, mas como questão de direito, é de ultra-direita. Não admira que o Hayek fosse a favor. Nâo quero ir para a cova antes de ler alguma coisa do Hayek. Adoro radicalidade.

Ideologia

Vou bater na mesma tecla. Liberação das drogas. Acho tão importante, que gostaria de ter uma coluna diária nos jornais e falar só sobre isso, para que todos ouvissem. Ideologia é uma espécie de gramática. Ela cria um discurso automatizado, não-refletido, associado a uma série de imagens, casos exemplares, ditos, bordões que estão sempre à disposição da pessoa e impedem a aproximação de qualquer argumento. O interlocutor não ouve o que você diz, ou, se ouve, não leva em conta. É difícil dar seqüência na conversa quando se conversa, não com uma pessoa, mas com uma ideologia. O discurso antidrogas é uma das mais fortes ideologias de nossa época. É muito bem blindada - mais blindada até do que a ideologia democrática. As imagens preferidas são a de crianças de classe média se drogando livremente (no recreio, no pátio do colégio em que o filho estuda), e a de maconha e cocaína sendo vendidas numa padaria (a mesma em que ele compra pão todas as manhãs). Uma estatística imaginária também desempenha papel importante nessa maneira automatizada de pensar. Essa estatística indica um crescimento absurdo do número de usuários nesse futuro sombrio sem as maravilhosas leis antidrogas. Ela faz a vítima pressentir, por trás dos números imaginários, uma crise social de grandes proporções. Muitas vezes, a imagem das ruas da cidade abandonadas, numa noite de chuva, pode ser utilizada para simbolizar o caos. Ao contrário da imagem de uma guerra, por exemplo, a imagem do "caos" pós-liberatório é borrada e imprecisa. Algo de muito grave aconteceu, mas não se sabe bem o quê.

Porra, Sassaroli. Acho que viajei um pouco. Mas ideologia antidrogas me deixa muito puto, e hoje, afinal de contas, mais de 50 pessoas morreram por conta dela.

Fim da bandidagem
Bom, os ataques e rebeliões de hoje me obrigam a bater na velha tecla: a liberação das drogas. A política antidrogas vai passar à história como uma espécie de alucinação coletiva que afetou boa parte do mundo a partir da segunda metade do século XX. É quase inacreditável a desproporção que existe entre as razões esfarrapadas que dão (ou pretendem dar) suporte argumentativo à política de proibição e a convicção com que as pessoas defendem essa política. Isto me parece mais interessante, do ponto de vista sociológico, do que a própria realidade do tráfico e do crime organizado. As pessoas não têm argumento, sabem que não têm argumento, mas seguem batendo monotonamente nas mesmas teclas, como se estivessem diante de uma evidência absoluta. As teses não são sustentadas por argumentos. São sustentadas por imagens. Imagina-se a cena de uma criança comprando cocaína na padaria para consumir no recreio com os amiguinhos. A cena horroriza, e a pessoa tira imediatamente a conclusão: "é, tem mesmo que proibir".
Cerezer.

Bom, você é médico, Sassaroli. Ganha bem. Eu, pobre de mim, tenho que me contentar com as beberagens nacionais, de corte mais espiritual e elevado, visto que nos fazem meditar por horas, no dia seguinte, a respeito dos males que a bebida nos traz.

Peraí. Vou dar uma espiada no noticiário e já volto, com um cutucão.

Chianti!

Perozzi,

Tomei duas garafas de chianti classico e dei um operada geral. Lembre-se de que o Prof. Sassarolli é médico, operar é comigo mesmo. Ah, ia me esquecendo, vou dar a dica da música do semana em homenagem, como poderia não ser?, à Lula e nosso fantástico Diplomacy Trio (Garcia na tuba, Samuca na zabumba e Amorin no bumbo), a música é "I Believe in Angels" cantada por alguém que eu vi dia desses. Se quiser ouvir vá atrás pesquisar, seu folgado!,que eu tenho mais o que fazer. Puts, preciso dormir.

 

Lula, Chavez e Morales

Será que Chavez e Evo são mesmo tão semelhantes a Lula e Kirchner? Kirchner, nitidamente mais "comedido", digamos assim, do que o venezuelano e o boliviano, teve o rompante de suspender o pagamento da dívida. Assumiu uma posição de confronto com o mercado internacional. Lula teve a postura oposta. Nacionalização de companhias estrangeiros é algo que (tenho certeza) passa pela cabeça do Itamar, nos raros momentos em que algo passa pela sua cabeça. O Garotinho seria capaz disso, se desconfiasse que lhe dá um lugar diferenciado no quadro político nacional. O Lula é o oposto disso. Sempre foi. Desde os tempos de sindicalista, tem um discurso anti-ruptura. Lula desenvolve uma política em tudo semelhante ao FHC, mas sem quadros de qualidade para tocar o dia-a-dia. É uma mescla um pouco bizarra de política ultra-conservadora com assistencialismo. FHC sempre procurou trabalhar no limite das metas de inflação. Lula, pelo contrário, foi por via de regra mais realista que o rei (ou que o príncipe).

Sassaroli, você fez uma "operação plástica" no blog? Minha resposta vem antes da sua pergunta. Menos vinho, Sassaroli... Menos vinho...
Ecco!!! Prof. Sassarolli Comparece 2 (A Missão)

(ATENÇÃO: ESTA MENSAGEM FOI PUBLICADA ORGININALMENTE EM 11/05/2006)

 

...Continuação

 

A grande crítica ao governo Lula, que me parece muito justa, é em relação à sua reação. Foi fraca, frouxa, titubeante. Acho que foi Marco Aurélio Garcia (nosso fogo amigo, que está sempre fazendo biquinho) que perguntou se os críticos queriam que o Brasil invadisse a Bolívia.Genial este sujeito! O trio diplomático (Garcia, Samuca e Amorin, pela ordem de importância no Planalto) é tão fraco de negociação que de saída reconheceu o direito à autodeterminação dos povos, que o povo boliviano está numa pior e finalizou com a pérola de que temos que ser carinhosos (esta foi do chefe supremo). Só faltou dizer que eram a favor do aborto, pela discriminalização da maconha, pelo desarmamento, contra a discriminação da mulher no trabalho, contra a  redução da maioridade penal, a favor do biodiesel, pelo uso da farinha de mandioca nos pães, pelo apoio total à economia solidária, etc. No final das contas, nossos grandes negociadores conseguiram produzir mesmo foi somente uma declaração politicamente correta (esta praga contemporânea).

 

Evo tem sua razão, os preços do gás ficaram defasados com a grande alta do petróleo dos últimos anos, mas não se começa uma negociação desta maneira. Mas, Lula e o PT mereceram esta traição (mais uma na grande coleção de nosso trio diplomático) pela aproximação excessiva com governos de pouca credibilidade, como são Chaves, Evo e até mesmo o Kirchner. Por que será que o Uruguai está correndo por fora para tentar um acordo bilateral com os EUA? Com sócios como Argentina de Kirchner, Lula de Brasil, Paraguai de sei lá quem, mais a aproximação de Chaves e Evo, qual o futuro disso se não virar um grande bordel ideológico?

 

Os eventos bolivianos, ou seriam bolivarianos?, inauguraram uma nova fase na história diplomática petista: depois da fase “cheirou cola?” do Fome Zero Global, da fase “Peladas no Torto” com caneladinhas altamente produtivas em Bush (nossa guerra é contra a fome), da fase “Fiz um negócio da China pra China” e nossas muito hábeis negociações com o PC chinês (como se na mesa de negociações todos fossem companheiros acima de tudo), da fase ‘Quero ser sub-síndico do mundo” de nossas pretensões no Conselho de Segurança, da fase o “Papa está no Papo” (a base quer e exige Dom Cláudio!), da fase “Afro” com o “nem parece a África”, começamos agora a dignificante fase CORNO MANSO com o bordão “obrigado Ricardão pro ter acalmado a velha”.

 

É se o Paraguai exigir reajustes na energia de Itaipu?

 

Por hoje é só pessoal, amanhã tem mais, se eu tiver saco.

 

Arrivederci e à demain que eu vou em frente!

 

Prof. Sassarolli

Ecco!! Prof. Sassarolli Comparece

(ATENÇÃO: esta mensagem foi publicada originalmente em 11/05/06)

 

Grande João,

 

Totalmente de acordo. Eco! Pregno! Pronto! E avanti!

 

Vamos começar pelo caso Devo ‘E Não Pago Mesmo’ Imorales e nossa amada Bolívia. Taí mais um discussão em que o Brasil se divide entre petistas e tucanos, uma chatice. É babaquice a dar com pau, cada time na sua trincheira, ninguém cede um milímetro ao bom senso com medo de perder o debate. E o tempo passa e vamos ficando para trás comendo a poeira do mundo.

 

A mediocridade do momento é discutir quem afinal é responsável pelo imbróglio boliviano. Perda de tempo! O gasoduto Brasil-Bolívia começou no governo Itamar, continuou com FHC e Lula. Se fosse mau negócio desde o início, como faz supor o febeapá do momento, todos erraram por não ter abortado o projeto quando no governo ou tê-lo denunciado quando na oposição. Até aqui todos estão no mesmo nível.

 

O gasoduto era um negócio de alto risco que deu muito certo. Quando ele começou não se sabia qual o tamanho das reservas de gás da Bolívia, a aposta se mostrou correta. Parabéns à Petrobrás! Tudo pode ter sido em vão? Pode, mas dificilmente a Bolívia vai querer nos perder como cliente de seu gás, ruim para nós, pior para eles. Então, a Petrobrás botou em risco um bilhão de doletas? Exatamente. Mas, alto lá! Antes, de atirar a primeira lata de Lubrax, é preciso lembrar que a atividade de uma empresa petrolífera é de alto risco mesmo. Se não se quer risco, melhor abrir uma funerária: sempre tem gente morrendo e o cliente nunca volta para reclamar. Lembremos daquela música algo babaca que dizia “todo artista tem que estar onde o povo está” (eles estão mesmo onde está a Lei Rouanet), pois é, a Petrobrás precisa estar onde o petróleo está. Se há chances de encontrar petróleo e gás na Bolívia ou no raio que o parta (o que no momento dá na mesma) lá vai a Petrobrás. Tem opção por um país mais estável? Claro, a Suíça é estável pra cacete, os caras nem envelhecem por lá, já as probabilidades de sucesso... Os paraísos petrolíferos são poucos, já foram explorados, só restam mesmo estes infernos terrestres tipo América Latina, África, Ásia Central, etc.

 

A baboseira que invadiu a imprensa nestas duas semanas está dando nos nervos. A Carta Capital (nossa, que coisiquinhazinha que virou a revista do Mino!) chegou a dar manchete de capa culpando FHC pelo investimento lá nos Andes. Que me desculpe o amigo quintetiano Perozzi, mas ser jornalista assim, caso de muitos na nossa imprensa, é uma baba, escrevem as mesmas bobagens todo dia e ainda ganham para isso. Ser jornalista no Brasil é uma grande moleza! É comum a gente perceber que nem quinze minutos de pesquisa essa gente se dá ao trabalho de fazer. Google Neles!!!! São tão fraquinhos que até engoliram o uso da expressão nacionalização das reservas naturais, como se elas tivessem sido levadas para fora da Bolívia e trazidas de volta pelo Evo, no lugar de expropriação dos bens da Petrobrás.

 

continua . . .

Evvo!!!!!!!

Esqueci de dizer que se o Humala Sem Alça ganhar as eleições no Peru teremos então um quinteto fantástico a América Latina e nos do Quinteto Irreverente estaremos com nosso empregos ameaçados. América Latina, o fundo do poço sempre é mais embaixo.

Ecco!!!

O Evo sacou que pisou no tomate (que saudade do garotinho Osmar Santos narrando!) com essa história de contrabando, ele acaba de baixar o tom. Se eu fosse o Brasil dava uma sacaneada, chamava o Embaixador na Bolívia e começava a preparar um plano de emergência para a falta de gás. Se forçar, acho que o Evo aceita até baixar o preço atual do gás e Lula aumentaria os votos entre os taxistas de São Paulo.

Aliás, o Quarteto Fantástico (Chaves, Evo, Kirchner e Lula) da América do Sul está tão em alta no mundo que Tabaré Vasquez e o presidente do Paraguai cairam fora da Cúpula Europa-A do Sul, têm mais o que fazer. Acho que vão dar uma passadinha para fazer compras em Andorra e voltam para casa. São governantes de bom senso, sabem que sentar numa mesa com bufões como Chaves, Evo e Kirchner e com alienados do real como Lula não dá boa coisa. Adiós muchachos, que tô indo.

Pernachia!!!!!!!!

Bom, a partir de agora, assumo minha personalidade quintetiana. Piacere. Perozzi.

Cagüeta, pelo menos, ele não é
Torci para que o Silvinho abrisse o bico e deflagrasse uma crise que fizesse o Brasil andar. Infelizmente, ele mostrou que, apesar do Land Rover, tem caráter. Não é cagüeta. Bobalhão, sim, mas pelo menos não é dedo-duro.
Aviso aos navegantes: mensagens longas são simplesmente engolidas. Mesmo as curtas, é melhor salvar num editor de texto antes de mandar. É uma merda, mas é a vida...

(cont.) A imprensa brasileira, infelizmente, embarca nessa onda, e fica exigindo que o Lula assuma a postura que, na minha opinião, ele faz muitíssimo bem em não assumir - a do herói nacionalista, defendendo a pátria do inimigo malvado com cara de índio. Sei lá se as declarações dele foram infelizes. No final das contas, o que vale, mesmo, é o que o cara tem na mão. Diplomacia não é truco, onde (às vezes) ganha quem berra mais. Nesta questão, pelo menos, acho que as questões relevantes são as seguintes. Quais são as alternativas de que dispomos? Quanto tempo leva? Quanto custa? O resto é lorota, papo furado, conversa prá boi dormir, ou, o que é muito pior, para o nacionalismo acordar. Deus me livre, Sassaroli. Prefiro paz, amor, e um bom vinho para acompanhar. Ci vediammo presto, caro mio. Ti ringrazio tanto per la visita.

Sassaroli, elogiar o Lula pelo que ele anda fazendo está difícil, você bem sabe. Vou elogiá-lo, então, pelo que ele não fez. Pode ser que as declarações dele não sejam um primor do ponto de vista diplomático, mas pelo menos um defeito elas não têm. Não caíram na tentação do populismo nacionalista. Olhe, em ano eleitoral, isso não é pouco, não. Peitar a Bolívia em rede nacional levaria a popularidade do homem para as nuvens. O Evo, afinal de contas, que tem um mandato inteiro pela frente, não se faz de rogado. Ontem, ficou batendo na tecla de que o Brasil teria surrupiado o Acre, trocando-o por um cavalo. O Heródoto teve que voltar aos tempos de professor para explicar, na CBN, que não foi bem assim. (Para começo de conversa, foram DOIS cavalos.) Esse cocalero merece mesmo uma surra no tronco. Será que o filho da puta não percebe que o horizonte de uma questão desse tipo é a guerra? (cont.)

Mas que merda de sistema, Sassaroli!!! É a segunda vez que tento publicar alguma coisa e minha mensagem simplesmente some!!!

Convite


Olhem, dizem que é conversando que a gente se entende, mas eu nunca acreditei muito nisso. Quando não nos entendemos perfeitamente com alguém, podemos até dialogar, discutir, negociar, propor, perguntar, responder, avisar, opinar, o escambau. Conversar, não. Conversa envolve tudo isso, mas envolve também uma outra coisa, um pouco difícil de definir. Se me perdoam a expressão horrorosa, eu diria que conversa envolve uma espécie de fusão das subjetividades. Quem gosta de conversar sabe perfeitamente o que é. Depois que a conversa esquenta, o grupo encontra (ou reencontra) uma espécie de identidade própria, um jeitão inconfundível que é a mistura melhorada de cada um dos membros. As diferenças se temperam, e acaba saindo um guisado gostoso, que acompanha maravilhosamente bem o chopinho e a noite. É o que acontece conosco. Desde os tempos de faculdade, gostamos de nos encontrar de vez em quando para pôr a conversa em dia e, papo vai, papo vem, acabamos sempre discutindo nossa grande paixão: o Brasil. Nesses anos todos, tudo o que eu penso a respeito de nosso país foi testado, filtrado e reformulado por nossas conversas. Tenho uma saudade enorme do tempo em que éramos vagabundos, e podíamos fazer isso com freqüência. Agora, a diáspora das profissões nos impõe intervalos longos, e é como se uma parte importante de mim tivesse que ficar trancada numa gaveta, indisponível por meses a fio. Veio-me, então, a idéia do blog. É um espaço público, eu sei, mas, afinal de contas, o bar também é. De mais a mais, pode ser muita pretensão de minha parte, mas acho que nossas conversas não são apenas gostosas. São também interessantes. Se alguém resolver dar uma espiada, que dê, ora essa. Se nossa conversa der uma contribuiçãozinha para os debates, argumentos, perguntas, respostas e perplexidades que circulam pelo Brasil, tanto melhor. Para nós, será sempre uma conversa boa, gostosa e desimpedida, e terá sempre esse sabor único, inconfundível, de uma receita que fomos aprimorando ao longo de muitos anos de convivência, e que, se nos perguntassem, não saberíamos dizer qual é. Só sei que nunca me enjôo e, quando a noite termina, volto sempre para casa com a sensação de querer mais.

 

 

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