Doctor, my doctor! 3

Acumpuntura De Rose

Na vôo de retorno de minha visita ao Conde e Condessa Machetti, no momento vivendo na Colômbia, ainda que na classe executiva sofri os efeitos da quebra da Varig. Dada a alta demanda, a Cia que sobrou na rota juntou as poltronas até o limite entre a idiotice e a canalhice, de tal maneira que atendia a estes dois critérios técnicos. Pois bem, como o pedal sob a poltrona da frente estava quebrado, eu não podia fixá-lo acima de meus pés, o que me impedia de esticar a perna. Cinco horas naquele casulo aeronáutico me causaram um problema na coxa esquerda que persiste após quase seis meses.

Já tentei de tudo, melhorou, mas às vezes ainda manco discretamente com a perna esquerda. Há algo de charmoso nisso, as senhoras se preocupam, perguntam, fazem cara de peninha e Sassa, manco, mas não louco, simula enfermidade grave e apavora.

Pois bem, depois de muito me encherem o saco, aceitei ir a um acumpunturista. Preenchida minha ficha, lá vem o bolo de noiva coberto de chantilly dar seu veredito. Puxa minhas pálpebras para baixo, observa minha mão, meu rosto e, enfim, pede para ver minha língua. Reflete por alguns segundos, parece ligar pontos, fazer relações, descobrir a origem do universo em desencanto e volta-se então ao mísero ser à sua frente para vaticinar com a segurança dos bons charlatões: você não veio aqui por causa da perna, veio por causa de seu coração!

Opa, tá me estranhando! Que negócio é esse? Sai pra lá!

Meu silêncio o estimula a se explicar. O primeiro indício é sua língua, é típica de cardíaco! diz ele. PQP, desde quando cardíaco tem língua diferente? Se nem fanho tem língua diferente, o que dizer de um cardíaco? Que curiosidade! Antes de sair do consultório, fui ao banheiro só para ver minha língua no espelho. Nada de anormal, nem de normal, uma língua como outras, solta às vezes, mas plesa jamais. No elevador, a ver as pessoas entrarem dava aquela curiosidade para ver suas línguas, eu precisava ver como eram as outras. Já em casa, coloquei a família em fila e observei a língua de cada um com muita atenção, conclusão: ou são todos sãos ou são todos cardíacos. Nada conclusiva minha primeira incursão no mundo da linguística cardiopatológica.

Mas voltando ao bolo de chantilly, quando ele deu seu segundo indício comprobatório de minha enfermidade cardiológica, tudo foi por água abaixo. Este seu rosto vermelho também é  típico de cardíaco, falou o pneuzinho de Ford bigode. Ah! malaco, te peguei na curva.

Ciência nas coxas dá nisso. Em plena crise alérgica, meu rosto estava vermelho como nunca, em um dia voltaria à cor muito clara que sempre teve. Como é sabido, odeio tudo que se refere ao astro rei, sol, calor, praia, água salgada e arrastão.

Mas, Sassa é antes de tudo um explorador da desgraça humana, do lado negro que as unidades de carbono guardam dentro de si. Eis que  pergunto ao homem com minha cínica cara de bobo alegre (o que não exige lá muito esforço, confesso), dando a impressão de que não ter a menor idéia da resposta que viria: e, Professor Doutor Canabis Causa Lentidão de Raciocínio, quanto tempo terei que fazer acumpuntura para corrigir este problema em meu coração.

Ganha um Bombom Sonho de Valsa Made in China quem advinhar.

Com a maior cara de pau o homem diz: pelo resto da sua vida!

Contas bancárias e homens ambiciosos, uma combinação ruim para a saúde pública, mas muito boa para a saúde financeira.

Docto, my doctor 2

Dr. Kobayashi em ação

O primeiro erro médico de minha vida, vim a descobri-lo vinte anos mais tarde e 20 kg mais fofo. Fim da década de 70, tinha lá meus 15 anos, comecei a ir para a cama muito cedo, dormia 12 horas por noite. Minha mãe deve ter ficado preocupada, como pode um menino em plena adolescência deixar de ver Sala Especial na Record às sextas-feiras? Algo precisava ser feito, os sinais eram preocupantes.

Levou-me então a um médico, Dr. Kobayashi. O FDP deve ter me achado um anêmico, me receitou umas malditas vitaminas e sei lá mais o que. Fiquei fofinho e mãe feliz da vida. As mães de outrora adoravam filhos fofinhos, era sinal de saúde boa. Hoje, em tempos bulímicos, botam na natação duas vezes por semana, no karatê mais duas, vai à nutricionista na sexta, pedalo em família no sábado. Ah! chegou o domingo, oba! podemos comer pizza de escarola. Um longa vida de merda.

Bem, vinte anos depois, vou a um endocrino dos bons. Primeira pergunta: quando você começou a ganhar peso? Conto-lhe a história do Dr. Kobayashi. Que mancada, diz ele, você deve ter um deficiência na tiróide, muito sono, pele ressecada... Tudo se encaixava. Exame feito, batata!

Ah, Kobayashi, que deus lhe dê vida longa...na UTI e entubado por cima e por baixo, FDP!

 

Doctor, my doctor!

Médicos sem fronteiras!

Como se sabe, sou defensor ferrenho do bom capitalismo... e do mal também, afinal melhor isso que viver na Cuba de Fidelito, mas cada vez mais trombo com certas práticas demasiado capitalistas para meu gosto.

Uma delas acontece em farmácias. Você entra, dá a receita médica ao fucionário, ele pega seu medicamento, carimba a receita, assina sei lá o que, enfia tudo num saco plástico, coloca-o numa cestinha e, de repente, vira pra gente e oferece:

- Senhor, o Acoxia está em promoção com 25% de desconto e dá para fazer no cartão em 3 vezes sem juros.

PQP, o que é isso? Um feira? Tá me achando com cara de hipondríaco, cacete? Só faltou me dizer: leva que o senhor está com cara de doente.

Outra, bem pior, aconteceu no dia de meu aniversário. Meu celular toca, é a secretária de minha cirurgiâ plástica (que uso quando preciso mudar o lay-out para missões de alto risco)

- Prof. Sassaroli, estou ligando em nome da doutora fulana para lhe dar os parabéns, desejar muitas felicidades, muita saúde (essa parte é pura falsidade), etc. Aliás, Professor, aproveitando a ligação (na verdade o que vem agora é o motivo da ligação) queria saber seu email para poder enviar informações sobre nossas promoções mensais.

Catso, desde quando médico faz promoção? Fico imaginando os títulos:

"Em dezembro, acalme sua orelha de abano por metade do preço".

Já que falei nela, cabe aqui uma orientação: esta cirurgiã é uma delícia. Balzaca cinqüentona, recebe seus pacientes com seu pretinho básico acima dos joelhos. Troca beijinhos e se acomoda em sua poltrona atrás de uma muito bem pensada mesa com tampo de vidro pra lá de transparente. Olhando aquele par de coxas, só penso numa coisa: meus problemas acabaram!

Se esta Dra. fosse especialista em disfunção sexual, seria uma ameaça à indústria de medicamentos.

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