Relativizando

OK, vamos admitir que o Ferréz esteja certo e que temos que incluir uma cláusula social no julgamento de um crime. A partir disso, eu teria algumas pequenas dúvidas.

Comecemos pelo lado ativo do crime (o criminoso)

- A cláusula social será aplicada apenas ao sujeito sem emprego? Neste caso, como ficaria o sub-empregado, o trabalhador informal, o sujeito que ganha um mísero salário mínimo? Seria uma diferença tão grande para justificar a discriminação jurídica?

- Ok, vamos incluir todos os citados acima. Mas como se sentiria o cidadão que ganhasse dois mínimos, tivesse emprego formal e tudo o mais?

Vamos pro passivo (a vítima)

- a partir de que nível sócio-econômico da vítima o crime seria compensado pela cláusula social? Dez mínimos de renda familiar? Ok, por que não 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, zero, fogo?

- hum, tive uma idéia. A cláusula social valeria nos casos em que a diferença de renda entre criminoso legal (vítima social) e a vítima legal (criminoso social) fosse superior a 30 vezes, por exemplo. Aí todos vamos andar com o holerith (tem que ser dos últimos 3 meses) para poder fazer a comparação de renda. Aí, sua renda é comprovadamente 29,79 vezes a do meliante, ele se vira e fala:desculpe o engano aí, você é mano que nem eu!

Eis o problema da relativização do crime, quais parâmetros vamos usar? (sem falar da idéia em si, que é uma idiotice)

Maestro, Quiz do Rolex do Che na Sierra!

Perozzi, nosso Rolex Hunter, responda rapidinho.

Por que um guerrilheiro usaria um relógio para mergulho na Sierra Maestra?

 

(   ) Porque o objetivo era uma mudança profunda da sociedade cubana?

(   ) Porque ele já sabia que a revolução ia naufragar?

(   ) Porque ele pretendia fugir a nado para Miami assim que desse?

(   ) Porque o fdp do Fidel não tinha um igual?

(   ) Porque quem sabe faz a hora não espera acontecer?

Melô do Rolex

Ai que endurecer, pero sin perder o Rolex!

Nos tempos em que ter um Rolex virou crime, e roubá-lo virou justiça social, eis aí uma foto do Companheiro Che com seu Rolex. Elio Gaspari contou e Sassa mostra tudo (com a ajuda do Cláudio Humberto).

Perozzi, que é fã da ética do Ferréz, autorizar-me-ia a dizer o seguinte: Diga-me com que relógio andas e eu te direi quem és.

PS: na foto está o revolucionário com o seu tradicional Rolex Submariner

Os Brutos Também Amam

À la Zeno, vai aqui uma dica, já que o Perozzi falou em saloon. No Submarino estão vedendo o DVD de Shane-Os Brutos Também Amam pela pechincha de R$12,90. É o segundo melhor werstern para mim, um pouco abaixo de Rastros de Ódio. Compra lá, Perozzi, seu mão de vaca!

Mama África, lá vamos nós

Ok, Perozzi, se é legal, então vamos fazer assim, cada grupinho tem o direito de criar sua justificativa ética e pau na moleira.

 

Ferréz é tão recalcado que vende a idéia para o medíocre mundo dos politicamente corretos que só a classe média se fode com a violência de seus manos. Seria bom ele consultar as estatísticas para ver que a violência pega pesado mesmo é com as pessoas da periferia. E se fodem duplamente, com os bandidos locais e com a polícia. Aquele mesmo assaltante do Rolex também apronta com seus vizinhos. A diferença é que um assassinato nos Jardins rende muito mais na mídia do que 10 na periferia.

 

O coitado do Ferréz se imagina um Che Guevara do Capão Redondo. Quem de nós não sonhou ser o Che um dia, Perozzi? Em seu sonho, Ferréz fez dos bandidos seu guerrilheiros. Acha esses meninos sem rumo uns revolucionários, vingadores da pobreza. Tem um pequeno probleminha no sonho dele: lá na frente não sobrará Estado para separar o joio do trigo. Celso Daniel sofreu na pele o resultado desta ética circunstancial.

 

Não nego o problema da pobreza, claro, mas mesmo à beira do esgoto da sua foto há escolhas que as pessoas fazem. Duro, né? A mãe pau d’água do texto do Ferréz fez a sua, seu filho assaltante também fez a dele. Com certeza, o Estado poderia ter ajudado muito nestas escolhas e fez muito pouco. Foi muito mais fácil para nós dois que para eles. É isso que tem que diminuir, acabar não acabará. Mas, lembre-se, que a grande maioria que tomava café naquela padaria fez uma escolha diferente desta mãe e seu filho. Seria justo tratá-los todos da mesma maneira?

 

Em termos de estratégia política, ao acharmos lindo o discurso do Ferréz (o guerilheiro dele é tão romantizado que é até anti-americano, só faltou dizer que fundou uma ONG) afastamos a grande maioria da classe mídia que pode pressionar a canalha política brasileira a trabalhar para melhorar isso tudo.Veja a merda que virou a escola pública depois que a classe média mandou seu filhos para as escola privadas.

 

Na fantasia que você acha legal do Ferréz, não haverá Estado nenhum e seu esgoto vai virar uma acampamento africano. Lá cada grupo, tribo ou bando achou sua justificativa particular para a violência e o resultado está aí em baixo. Sem o Estado e a pressão do Ferréz ao Hulk (que deu um bela entrevista à Veja sobre o Brasil) não temos saída. Aqui não se trata de dividir para governar, mas de se juntar para não desgovernar.

 

 

                                         

                                                  Quando o Estado se vai.

O outro lado

Sabe o que eu acho legal no Ferréz, Sassa? Ele não se limita a descrever a miséria e a violência. Ele nos mostra um discurso no qual a miséria se transforma numa justificativa ética para a violência. Podemos gostar, ou não, mas esse discurso existe, e está na garganta de cada um dos freqüentadores de shows de rappers na periferia. Não se apresenta como saída para coisa nenhuma, por isso não adianta criticá-lo por aí. É muito mais a expressão da ausência de saídas, da ausência de alternativas viáveis. O miserável que opta por puxar uma carroça pela cidade é mostrado como um otário, que fez uma escolha absolutamente irracional, dadas as circunstâncias.

Você entra no saloon. É convidado para jogar. O baralho é viciado, os jogadores roubam o tempo todo e, mesmo que você ganhe, dificilmente sairá vivo dali com o dinheiro. O que é que você faz? Senta, e joga, mesmo assim?

O jogo da sociabilidade tem um preço, que nós insistimos em não querer pagar. Se você obriga seres humanos a viverem no meio do esgoto, qualquer coisa que eles façam será justificável. Num ambiente em que qualquer curso de ação é justificável, não há lugar para éticas compartilhadas. Eu tenho o meu lado, ou outro tem o dele, e o assunto termina por aí.

É isso...

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