Pergunte ao Mestre...

Sassa, meu caro mestre. Diga se estou ficando maluco. Mirian Porcão cansou de fazer continhas na TV para mostrar que, juros sobre juros, os 0,38% da CPMF dariam fácil, fácil de 10 a 15% de acréscimo no preço final de produtos industrializados, com cadeia produtiva mais longa. Estava aí o ponto da argumentação segundo a qual quem paga o pato, mesmo, é o consumidor. Se as coisas são assim, nos seis meses seguintes à implementação da CPMF a curva inflacionária não deveria ter vergado para cima? E, agora, com o fim da simpática contribuição, não é razoável esperarmos que haja uma queda brusca nos preços a partir de janeiro?

Só prá saber, tá?

rs...

Popper e a CPMF

Do economista Gilberto Luiz do Amaral, do IBPT:

"[A CPMF] onera as populações mais pobres, porque está embutida no arroz, no feijão, na carne, no transporte, nas confecções, na energia elétrica, enfim, em tudo o que é consumido."

A primeira coisa que se esperaria de um cientista, agora, é um compromisso com as previsões embutidas numa afirmação como essa: algum efeito detectável na curva dos preços nos próximos meses. Duvido que alguém se importe se nada acontecer. Duvido, aliás, que alguém se importe em verificar SE algo aconteceu. Tudo se passa como se a previsão não tivesse sido feita. De um ponto de vista popperiano, economistas e psicanalistas estão mesmo num único saco. Se dá certo, a teoria é boa. Se dá errado, a culpa é do paciente, que resistiu.

Stockhausen e Flo Menezes

Flo Menezes ou como homenagear um amigo falando de si mesmo

Já que o Perozzi anda atacado com as artes, vai mais uma pro cara infartar de raiva. O UOL tem uma chamada para um artigo de Flo Menezes sobre Stockhausen, morto há alguns dias. Lá vou eu ler a coisa e descubro uma autêntica peça de arte contemporânea. Obviamente que o Flo bota o Sto lá no to...po. Em resumo, é um Bach do século XX. O longo texto, não consigo acreditar no que leio, o assunto não é o Stock que mas algo como 'esse cara fodão era meu amigo".

O texto está aqui . Alguns trechos do Requiem do Sto pelo Flo.

Karlheinz Stockhausen, que nos deixou no último dia 5 de dezembro, conseguiu superar essa relação de igualdade entre compositor/música e nos faz pensar na extensão de tal comparação: Stockhausen é a além-música. A cada obra sua, intrincadas elaborações, meticulosas formulações e inovações surpreendentes aliavam-se, sempre, a um incomensurável potencial extra-humano, de índole cosmológica.(é a profecia que se realiza, o homem além-musica, vai fazer música no além)

Sou, no Brasil, a única pessoa com quem Stockhausen mantinha contato próximo e assíduo. Perdi um parente próximo. Um tio e um mestre. Esta é a sensação. A notícia de seu desaparecimento, que me chegara antes mesmo que a imprensa local tivesse tido dela qualquer informação, impactou-me como um golpe do TEMPO, que mais uma vez se mostrou mais forte que qualquer um de nós, dobrando até mesmo a aparente inesgotável energia criativa de Stockhausen. (Se o Perozzi disser que recebe uma mensagem do anti-span do Sto, Flo nega e renega. No Brasil só ele e mais ninguém)

Informando-se sobre o conteúdo de meu curso, Stockhausen convidou-me imediatamente a ser o professor de análise de suas obras neste evento anual. (Sto não pensa, convida imediatily)

Em 2000, conflitos de datas entre o curso alemão e meus próprios concertos impossibilitaram-me de dele participar. Em carta de 4 de setembro de 2000, Stockhausen escrevera-me sobre minha ausência em Kürten: “Caro Flo Menezes, você de fato fez muita falta aqui nos cursos: sua alegre alma, sua sabedoria musical, sua amabilidade!”. (Flo Flez Flalta, Flo Floriu Fludo, Flo é Floda!)

Consegui, em 2001, ministrar a seu pedido mais uma vez o curso, mas preferi, por diversas razões, retirar-me de seu círculo a partir de 2002, tendo sido substituído por um grande musicólogo, Richard Toop, seu ex-assistente na década de 1960.(só um grande musicólogo pode repor Flo)

Certa vez, em 2001, conversando com Stockhausen em sua bela cozinha por mais de quatro horas, durante as quais olhou atentamente, por cerca de 40 minutos, página por página de minha obra “A Dialética da Praia” (1993) ... (40 minutinhos para a Dialética da Praia não é demais?) 

Recebi aquilo com o gosto de quem participa de um jogo de adultos, de quem também provoca e “agulha”, como todo criador permanentemente insatisfeito, exatamente tal como devemos ser nós, compositores. (nóis é o orgulho da raça)

Os que se aproveitam de cada mísera chance para apedrejar a vanguarda certamente falarão, como sempre o fazem, de meu suposto “ego inflamado” ao relatar tais acontecimentos. Fato é, contudo, que Stockhausen nutria, pessoalmente, um grande apreço pela minha pessoa, indo ao encontro de meu profundo sentimento de respeito por sua integridade musical. Via em mim a chance de sua música ser um pouco mais entendida no Brasil. (Sto ama Flo, que ama Sto, que ama Flo, que toma Vioxx para o ego inflamado)

Admitiria Stockhausen ter se apropriado, mesmo que inconscientemente, da concepção de meus “Pulsares”, que bem conhecia? Se tivesse eu tido tempo para lhe enviar uma questão como esta, Stockhausen certamente teria se rebelado contra qualquer interpretação nesse sentido. (Sto copia Flo)

Nadamos, entretanto, contra a corrente de um mar tempestuoso, povoado por uma avassaladora mediocridade e pelo conservadorismo. (eu, você, nós dois ou me inclua nessa luta inglória ainda que digna)

Em uma de minhas recentes cartas em meio à longa missiva com o mestre alemão, escrevi a Stockhausen (em 9 de abril deste ano): “Espero que esteja bem com sua inesgotável energia!”. Ao que Stockhausen me respondeu em 22 de abril de 2007: “Obrigado também no que diz respeito à minha ‘energia’” (onde se lê energia, entenda-se ego. E dois imensos egos inflamados só podem ter uma lonnnnga missiva )

Sua obra, no entanto, certamente resistirá aos séculos, com a de um Bach, de um Mozart ou de um Beethoven, tão mal compreendida como a de seus parceiros nesse seleto time dos gênios! (Flo=Sto=Bach,Mozart e Beethoven)

Caralho, para mim chega, vou ouvir um pouco das Quatro Estações de Antonio Vivaldi, tô com vontade de sentir alegria de viver.

Um quadro de Mondrian é bonito?

 

É claro que é. Tem equilíbrio e ritmo, obtidos por uma distribuição sábia de cores e formas sobre uma tela. Em certos tipos de sala, pode servir para decorar melhor o ambiente, pouco importa se no original, ou numa reprodução. Mesmo contando com o modelo das soluções que ele criou, não creio que eu seria capaz de produzir algo tão harmonioso quanto esse quadro aí em cima, ou qualquer outro que ele pintou. Mas eu também não seria capaz de criar uma luminária tão harmoniosa quanto esta que está sobre a escrivaninha, à minha frente, nem um aparelho de telefone tão gracioso quanto este modelo standard que a Telefônica dá de graça aos seus assinantes.

Compare, porém, este, ou qualquer quadro da fase "abstrata" de Mondrian com este outro, de Magritte:

Ele também tem ritmo, equilíbrio e harmonia. Também pode ser usado para enfeitar paredes, sem nenhum problema. Absolutamente todos os valores estéticos que posso associar ao quadro de Mondrian, eu também posso associar ao quadro de Magritte. A diferença é que este último exibe uma habilidade que o primeiro não exibe - a habilidade de reproduzir formas da natureza sobre uma tela. A idéia é caretérrima, eu sei, e por isso mesmo faço questão de jogá-la, assim, de chofre, e sem retoques, sobre a telinha. Para provocar, mesmo. Meu ponto é muito simples: esta habilidade "mimética" é uma habilidade adicional que boa parte da arte contemporânea resolveu desprezar. Desprezando-a, empobreceu a arte, e propriciou uma dissolução dos critérios de avaliação artística. Não que a arte abstrata não possa ser associada a critérios de avaliação. Pode, e eu mesmo acabei de usar alguns deles para reconhecer que o quadro de Mondrian é bonito. O problema é que a mímese introduz um nível de complicação no jogo estético inimaginável quando se permanece apenas na dimensão das cores e formas sabiamente distribuídas sobre uma tela. Além disso, introduz uma exigência de talento e formação técnica a que muitos artistas contemporâneos sentiram-se no direito de dar solenemente as costas.

Dominó é um jogo; xadrez é outro. Ambos requerem habilidade e treino. Em ambos você vai encontrar jogadores medíocres, bons e excepcionais. Só que um excepcional jogador de xadrez irá sempre provocar uma admiração que um jogador excepcional do dominó não provoca, e isso por um motivo bem simples. O xadrez é MUITO mais complicado do que o dominó. Minha idéia é que boa parte da arte contemporânea foi feita por excelentes jogadores de dominó. Por mais habilidade que eles exibam no jogo em que se especializaram, jamais poderão ser comparados a um jogador mediano de xadrez. A habilidade de jogar bem xadrez nos assombra numa medida que a habilidade de jogar dominó jamais poderá nos assombrar.

É a valores simples desse tipo que eu acho que, mais cedo ou mais tarde, acabaremos retornando, para reconquistar um solo que, na arte contemporânea, se evaporou.

Viva Norman Rockwell!

Barzunzun

Jacques Barzun

Caro amigo Perozzi, fiquei lendo seus protestos contra o Marcos Augusto Gonçalves e pensando, como deve ser duro ser um lixo de crítico dentro de um lixo de jornal.

Barzun é a solução, meu amigo. Comprei há algum tempo atrás seu livro Da Alvorada à Decadência. É um livro que a rigor dá para ler a vida inteira. A cada tema importante da civilização ocidental, ele diz "o livro a ler aqui é...". Se você parar em cada sugestão dele, vira os noventa lendo sua obra. Infelizmente, meus modestos compromissos acadêmicos me fizeram parar a leitura. Em agosto do ano que vem, retomo.

Um dos últimos capítulos se chama "O Artista Profeta e Bufão". Seus textos aqui no blog me fizeram pular todo o livro e dar uma olhada nele. Veja um trecho, compre o livro (não me peça emrpestado, seu mão de vaca) e se delicie.

"Mas, nesse século, o novo era um caminho por um certo número de gênios que não tardaram em gerar uma escola de hábeis exploradores. Na década de 1920, a originalidade produziu o espetáculo de muitos estilos que se sobrepunham simultaneamente. O ganho aparente era, na realidade uma perda: não só privou a época do que poderia ter sido o seu estilo característico, mas também sujeitou cada grupo concorrente aos acidentes da voga. No final do século XX, era comum dizer que o tempo de vida de um estilo era de três meses. Para esses criadores, a antiga máxima é invertida: a vida é londa a arte é breve."

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