Literatura de banheiro

Laudelinas

Mestre Laudelino é porreta!

Mais duas chupadas do livro "Gallicismos" (1921) do grande Laudelino Freire, que eu e o Perozzi veneramos mais que tudo em língua portuguesa. A intenção do mestre é propor substitutos a galicismos usados no Brasil das primeiras décadas do século XX. É uma delícia de livro.

Na Ferradura:

Claque - para substituir este francesismo criou Castro o neologismo venapplauso, applauso vendido pelos que no theatro batem palmas aos actores, por dinheiro, ou por algum outro motivo: applauso forçado, não espontaneo. Este neologismo é formado com o adjectivo venal e o substantivo applauso.

No Cravo:

Cabello Chato - Cheveu chat, desajeitada e infiel expressão de cabelo escorrido, ou liso. (Ruy, 559)

Errou a primeira, afinal claque pegou, e acertou a segunda, o mais próximo que conheço é chato no pentelho, que não deixa de ser um cabelo. Conde Maschetti tem história boa sobre chatos em local inapropriado.

Laudelino ou Caldas

Ah, não. Nessa, eu tenho que dar o meu pitaco. Não dá para começar a comparar o Laudelino com o Caldas Ao Leite. O Laudelino é único, espetacular. Não é só um dicionário para ser consultado. É um dicionário para ser lido. Devido às proporções dos cartapácios, tenho em meu banheiro uma escadinha de três degraus que todos pensam que serve para trocar lâmpada. Nananina. Serve de mesinha, quando resolvo carregar comigo o Laudelino. O que ele tem de diferente? A profusão de exemplos maravilhosos, tirados da literatura. Dois, três, quatro para cada acepção da palavra. O Caldas Ao Leite é bom, mas não chega aos pés. É burocrático e chato. Consultável, mas ilegível. Compará-los é heresia. Na República dos meus sonhos, a pena poderia chegar a cinco chibatadas, seguidas de duas horas de execração pública no pelourinho.

Literatura de banheiro

 

Poesia concreta. Taí, Sassa. Descobri prá que é que serve. Como o salário é pequeno e a casa idem, tenho que otimizar espaço. Livros que não deveria ter lido, ou dos quais desisti a tempo (e há tempos) são postos nos fundos da estante lá da Faculdade, atrás dos outros. Tem o Manual de Xadrez do Idel Becker, as letras do Bob Dylan, uma gramaticazinha de alemão dos tempos do nazismo, Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, a História da Revolução Russa do Trotsky, e tem também uma respeitável coleção de poesia concreta. Trouxe alguns para casa, e estou testando no lugar devido, aplicando aquela minha máxima estética segundo a qual não basta ajustar o conteúdo à forma - forma e conteúdo devem ajustar-se às circunstâncias. É o que meus coleguinhas lingüistas gostam de chamar de "dimensão pragmática". É perfeito, Sassa. Para circunstâncias triviais, pérolas do tipo GREVE GREVE GREVE GREVE. Nas estraordinárias, que exigem maior esforço e concentração, Xadrez de Estrelas. Desconfio que o do Idel Becker é melhor, mas infelizmente não sou como o Conde Mascetti, que tem o tabuleiro na cabeça. Nasci burro, morrerei toupeira. Vou de Haroldo.

A Classe operária vai ao Paraíso

Top of Mind in Miami

 

Perozzi, olha só que maravilha que é a internet. No link abaixo, que é um portal do PC do B, você encontra uma porrada de obras marxistas em arquivo pdf para baixar. É Bill Gates ajudando a espalhar o socialismo de Aldo Rebelo, o primeiro caixa automático eleito deputado de que se tem notícia.

 

http://www.vermelho.org.br/img/obras/bibliomarx.asp

 

Importante: todas as obras disponíveis no link  são o que há de melhor em literatura de banheiro, indispensáveis pois tem papel duplo (não confunda com o Neve), servem para ler e, terminada a empreitada fisiológica, são perfeitas para limpar a bunda.

 

A Bíblia Sagrada

Pode parecer uma profanação para os incréus, esquecidos de que o que é impuro aos olhos do homem é puro aos olhos do Senhor. O Criador, de mais a mais, não tem nariz e, mesmo que tivesse, além de ser Altíssimo, mora nas alturas, ficando a salvo, assim, dos eflúvios da mortalidade.

A Bíblia é perfeita para os instantes de maior recolhimento. Volto à infância, abrindo uma página ao acaso e procurando uma mensagem oculta ali no meio para mim. É como bincar de Gestalt com as nuvens. Uma viagem. Aliás, adquiri o hábito viajando, nos hotéis, com aquelas edições das Testemunhas de Jeová deixadas no criado-mudo. No ambiente doméstico, posso contar com as maravilhosas notinhas da Bíblia de Jerusalém, pulando de um canto a outro do cartapácio, sem assunto, nem rumo, até me convencer de que consumatum est.

Sonetos

De Camóes. Só preciso trocar a minha edição por uma outra, escolar, com notas. No banheiro da minha casa, infelizmente, dicionário não entra. Porque não cabe. Sapeco aí embaixo um bem maneiro, procê dormir com os anjinhos.

 

Bem sei, amor, que é certo o que receio;

Mas tu, porque com isso mais te apuras,

de manhoso mo negas e mo juras

no teu dourado arco, e eu to creio

 

A mão tenho metida no teu seio,

e não vejo meus danos, às escuras;

e tu contudo tanto me asseguras,

que me digo que minto, e que me enleio.

 

Não somente consinto neste engano,

mas inda to agradeço, e a mim me nego

tudo o que vejo e sinto do meu dano.

 

Oh! poderoso mal a que me entrego!

Que, no meio do justo desengano,

me possa inda cegar um moço cego.

Pasquale versus Sacconi

Gramáticas, em geral, são excelentes laxantes - ou relaxantes, quando a vida se faz mais dura. Mas nada se compara ao professor Pasquale. Tem bom senso, cultura e senso de humor. Não erre mais, do professor Sacconi, é muito engraçadinho, mas está cheio de erros e frescuras. Distingue "estada" de "estadia", por exemplo, dizendo que só navios no porto fazem estadia. Turista tem que fazer estada. Nessas horas, o Sacconi faz juz ao nome. É como essa praga de "correr risco de morte". Durante anos, moribundos correram risco de vida, e não sei qual babaca achou que o risco não é de vida, mas de morte, ora, pois, ó gajo. Os repórteres de TV foram avisados, e começaram a posar de bacana. Ora, façam-me o favor! Se eu digo que não há ninguém no banheiro, e alguém entende que tem gente, merece ficar borrado.

O eu profundo

As Quadras ao Gosto Popular, do Fernando Pessoa. Missão cumprida, misturo tudo e saem essas pérolas que podem ser lidas aqui no blog, numa perfeita integração de matéria e forma.

Classificados

É o self-service da literatura de banheiro: you take what you eat. Fórmulas de shampoo costumam pecar por falta. Obrigam a voltar insistentemente sobre os mesmos componentes, ou então a montar joguinhos, como o de repetir mentalmente, de cor, coisinhas como "cloreto de cinamidopropiltrimônio", ou "butilcarbamato de iodopropinila". Voltarei ao tema. Já as crônicas de jornal costumam pecar por excesso. Nem sempre compensam o desconforto da poltrona oca e das costas arqueadas, e geralmente ficam lidas pela metade. Classificados, não. Você vai pinçando itens ao acaso - carros, apartamentos, empregos e putas - até sentir que já é hora de voltar ao mundo exterior. Larga o jornal ali mesmo, sem culpa alguma, e, na sala, já não será capaz de enumerar as coisas que acabou de ler. Como se trata de um clássico, terei que explorar o tema sob diversos ângulos, dando ao leitor (no caso, você, Sassaroli, pois este blog só tem dois) uma visão mais aprofundada sobre o assunto.

Viajando no azulejo

Não é literatura, eu sei, mas também é um exercício de imaginação. Envolve cenas, enredos, episódios , personagens. Refiro-me ao tabuleiro dos azulejos do meu banheiro. Às vezes, são quadras de uma cidade vista do avião. Pode haver uma perseguição de carros, ou duas pessoas caminhando que quase se encontram nos sulcos do rejunte. Pode ser a representação esquemática de uma rede de trilhas no meio da floresta, ou uma penitenciária de segurança máxima, com seus pavilhões e celas, ou dezenas de jogos bizarros de tabuleiro. Em alguns, as pedras apenas se movem, sem se comerem entre si, noutros há duas disputas simultâneas e relacionadas, uma sobre os quadrados, e outra sobre as encruzilhadas. Há tabuleiros compridos, subindo pela parede. Nesses, o jogo é quase sempre uma espécie de corrida associada a uma trinca de dados. Em todos esses casos, os azulejos cumprem bastante bem a missão que costumo atribuir aos livros: criar uma dissociação entre o que se está pensando e o que o organismo está fazendo. Deixo que o corpo desempenhe suas funções sem qualquer interferência do mundo interior, absorto em outros planos. Sei que os azulejos são esquemáticos demais, o que me obriga a projetar inúmeros elementos sobre a parede. Ideais, mesmo, são aquelas paredes texturizadas, que permitem um jogo semelhante ao que fazemos com as nuvens do céu, procurando (ou criando?) formas naquele labirinto de sulcos e protuberâncias. Como o banheiro de minha casa é azulejado, sou obrigado a suprir com projeções arbitrárias a falta de elementos objetivos de sugestão. Às vezes utilizo também bolinhas de papel higiênico, que podem ser pessoas, carros, peças, alvos, sinalizações num mapa, bombas prontas a explodir. Está rindo de quê, Sassaroli? Maledetto... Até parece que ele é muito normal...

Livro recém-comprado

Pode ser qualquer um. Lugar de namorar livro novo é no banheiro. Meu intestino já sabe. Mal entro com o carro na garagem, e ele já levanta a bola na área.

Minha digníssima compreende que, nessas horas, todas as outras tarefas da agenda passaram para um segundo plano longínquo. É solidária. Se o telefone toca, eu não estou.

Manual de Redação da Folha

O do Estadão é melhor, mas o da Folha é mais divertido. Merece, por isso, minha preferência quando estou enfezado. O verbete "trombadinha", por exemplo, é maravilhoso: "Não use esta designação depreciativa para criança infratora". Ah, então, tá. Mas "criança infratora" é o quê? Designação elogiosa, por acaso? E se a infração da criança não for dar trombada? Na pág. 270 de minha edição, há um guia de opções politicamente corretas que é hilário. Ex.:

ANTES DE ESCREVER... fujão, maricas, amarelão, poltrão, bundão, cagarolas,

VEJA SE VOCÊ NÃO QUER SIMPLESMENTE DIZER... medroso, covarde,

MAS TAMBÉM NÃO EXAGERE, ESCREVENDO... timorato, ignavo, pusilânime, indivíduo extremamente acautelado.

Hahahahaha.... Rindo assim, a coisa escorrega que nem quiabo.

Schop é Pop!

Já que a leitura de banheiro precisa ser estreitinha para caber sobre a caixa de sua descarga, aqui vai uma sugestão ótima. “Como Vencer um Debate sem Precisar Ter razão” de Arthur Shopenhauer, tradução, introdução e notas de Olavo de Carvalho. Editora Topbooks (bela editora essa, tem muita coisa de primeira).

 

Nas palavras de Olavo de Carvalho, este é um manual de patifaria intelectual. É impressionante como reconhecemos ali estratagemas com que nos deparamos todo dia na academia (não é a de ginástica, cacete), nos Jornais, na vida em geral. O Schop é do caralho.

 

Outro dia li mais um artigo encomendado de Luis Nassif descendo o cacete no nosso velho colega Samuel Pessoa, que parece que será coordenador de economia do Alckmin. Um coquetel de bobagens. Pegou um artigo do Samuel e o esculhambou, em resumo o grande jornalista econômico acusou Samuel de só fazer perguntas e não dar nenhuma resposta. Ele gosta de chamar certos economistas de cabeça-de-planilha, não foi diferente com o Samuel. Eu prefiro uma cabeça-de-planilha a uma cabeça vendida. Primeiro pegou um artigo do sujeito, como se fosse tudo o que ele havia escrito. Depois o acusou de só fazer perguntas, que é isso, companheiro Nassif! Inegavelmente é preferível alguém que faça as perguntas certas àquele que dê as respostas erradas. Por último, nada melhor para coordenar um grupo de economistas, do que um que pergunte muito, afinal se ele soubesse as respostas não precisaria dos outros.

Mas deve ser um exagero meu, Nassif é aquilo que se convencionou chamar de jornalista isento. Me engana que eu gosto.

 

Um Lux de Luxo para você.

Zweitausendeins Merkheft

O catálogo da Zweitausendeins. Com o meu alemãozinho de merda, só dá mesmo para entender o assunto, e assim mesmo mal e mal, sacumé? E quem é que liga? Poderia ser um gibi em japonês, dava na mesma. O importante é que os olhos fiquem ocupados, enquanto o intestino se desimcumbe de suas tarefas precípuas. Recomendo!

Guia 4 Rodas

É campeão absoluto no gênero. Prático (cabe direitinho sobre a tampa da cuba de descarga), versátil (possui desde verbetes curtos, como "Ituberá" e "Bacabal", para meditações de menos de um minuto, até exposições de várias páginas, próprias para ocasiões mais solenes, como os clássicos "Campos do Jordão" e "Salvador"), absorvente (não me refiro ao papel, é claro) e variado (sempre há uma cidadezinha do interior de São Paulo que ainda não consultamos). Algumas de minhas melhores férias foram planejadas assim. Nas últimas edições acrescentaram roteiros comentados que são uma cachaça. Só paro de ler quando a coxa começa a formigar.

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