Se ele não fosse o bundão que é...
Seria fácil atacá-lo no ponto em que você parece estar mais frágil. Meus marqueteiros me recomendaram que fizesse isso, e até treinamos bastante, na frente de um espelho, as expressões que eu deveria fazer em cada ocasião, as palavras que deveria utilizar, as coisas que não deveria dizer de maneira alguma, e por aí vai. Mas, olhe, meu velho, eu não dou para isso. Se tentasse, soaria falso, e essa maquininha maldita que nos leva à casa das pessoas é craque em detectar pequenas mentiras, pequenos deslizes. Magnifica tudo, você sabe. É um inferno. Há pessoas que conseguem mentir com perfeição diante das câmeras - você é um deles, aliás. Eu simplesmente não consigo. Não sou ator, como disse o FHC, esse aliado que, ao dizer que me apóia, mente, você sabe. Mas convence. Até nisso vocês dois são parecidos. Como não tenho talento para a coisa, vou me contentar em dizer toda a verdade, e deixar que as pessoas julguem quem é a melhor opção para o país neste momento.
Não sei se você tem alguma coisa a ver com esse dossiê, ou não. Desconfio que tenha, sim. Decisões sobre como usar 2 milhões de reais não são tomadas por "meninos", nem muito menos por "aloprados". Dois milhões é um bocado de dinheiro, meu caro. A cúpula do partido, e possivelmente você mesmo, em pessoa, estejam por trás dessa tramóia. Mas não vou posar de santo, até porque ninguém ali do outro lado acreditaria, mesmo. Eleições custam uma dinheirama, principalmente quando envolvem produções televisivas cheias de maquiagens e efeitos especiais. Tanto vocês quanto nós tivemos que recorrer a essas pirotectnias, e tivemos que correr atrás da grana prá pagar a conta. E você sabe como essa grana é arrecadada, no seu partido e no meu. Passamos o chapéu entre os empresários, e depois atendemos aos "pleitos" dos deputados ligados a cada um deles. Os cargos nas estatais, afinal de contas, estão aí para isso. O doador recebe o investimento multiplicado. Lucra ele, lucramos nós, e só mesmo o povo que está nos assistindo é que não lucra nada. Pagam a conta, coitados. Tenho alguns téoricos amigos que diriam que este é, afinal, o preço da democracia. Não é, não, Lula. E você sabe disso. Pode ter feito o que for, mas a verdade é que tem sido o único a defender uma reforma das regras de financiamento de campanha que poria fim a esse balacobaco todo: o financiamento exclusivamente público, com penas severas para quem for passar a sacolinha fora do combinado. Meu partido, você sabe, é contra. É contra principalmente porque aliou-se ao PFL, que vive às custas desse sistema por esse Brasil afora, nas prefeituras e nos governos estaduais em que conseguiu se estabelecer. Mas eu já disse que não vim aqui hoje para enrolar ninguém. Nâo tenho nada a perder, meu caro. Você está praticamente eleito, e o máximo que eu posso esperar, em 2010, é uma disputa da vaga para o Senado. Então, quero dizer que o apóio nessa proposta. Assumo aqui o compromisso de lutarmos juntos para mudar as regras do financimento de campanhas, e de não pensar nas vantagens que a minha turminha leva pela adoção destas regras, e não daquelas. Temos que acabar com essa safadeza que não é sua, nem minha, nem do FHC, nem do Collor, nem do Maluf. É uma safadeza do próprio jogo. Tem que acabar. Para você, para mim, pra todos.
Outra coisa, Lula. Quero reconhecer de público que seus programas de transferência de renda são um marco na história do Brasil. Pela primeira vez, foi dada à miséria do país a dimensão que ela realmente tem. Tudo bem, os programas foram desenhados no governo do FHC. Mas a escala dada a eles no seu governo não é um detalhe irrelevante. Nesta semana, a Veja (a Veja, veja bem!!!) entrevistou uma família do interior do Maranhão que irá votar em você. Recebem 100 pilas por mês. O chefe da família disse que vota no Lula porque pela primeira vez na vida pôde comer carne todos os dias. Tá errado? Errado estava quando votava em não sei quem em troca de uma cesta básica, ou de uma dentadura. Agora, vota, porque tem interesse nisso. Não o condeno de maneira alguma. Eu gostaria de dizer a ele apenas uma coisa. Se continuarmos marcando passo, e crescendo menos que todo mundo, daqui a pouco não haverá dinheiro nem mesmo para distribuir dentaduras e cestas básicas. A população cresce, e o país também precisa crescer. Além disso, quando perdemos mercados, as fábricas fecham, e os impostos diminuem. E o dinheiro do Bolsa Família sai dos impostos pagos. Não cai do céu.
Você não desarmou a armadilha dos juros, Lula. Esse foi o seu grande erro. Ou, melhor, não foi só seu, não. Foi nosso também. Não vou dizer aqui que os tucanos punham todas as esperanças no José Serra porque achavam que ele iria deixar tudo como estava no final do segundo mandato do Fernandão. Dentro do próprio PSDB, o Serra era a esperança de que as coisas mudassem. Havia a percepção de que aquela política do "deixa como está para ver como é que fica" estava nos levando ao buraco que você ajudou a cavar um pouquinho mais. Besteira sua ficar vomitando números, Lula. Se tivesse enfrentado as crises que o Fernandão enfrentou (cinco, uma depois da outra, lembra?), os números seriam outros. Melhores que os nossos? Isso só Deus sabe. Provavelmente, não. Igualmente medíocres, eu acho. Será que não?
Vou fazer, então, um apelo. Quem for votar em mim, não vote porque acha que eu sou "ético", e que o Lula não é. Isso é balela. Tanto eu quanto ele, pessoalmente, somos bons sujeitos. Gostamos do poder, gostamos de governar, mas damos um sentido maior a esse gosto. Mal ou bem, temos um plano para a nação. Votem porque acreditam nesse plano, ou pelo menos, acreditam em nossa capacidade de levar esse plano adiante. O Brasil, atualmente, tem três grandes problemas, e eles estão relacionados entre si: a miséria, a dívida pública e a violência urbana. Vou começar a falar a respeito de quais são minhas propostas para a solução desses problemas. Estou convencido de que tenho um plano muito melhor que o do Lula, e que tenho uma equipe muito mais qualificada para levar esse plano adiante. Escutem...